Entre conversas, exercícios práticos e muitos momentos de descoberta, José Carlos Baptista revela como aprender tecnologia pode ser um processo envolvente e até libertador. A partir das experiências que vive com os formandos, identifica padrões, dificuldades e conquistas que ajudam a compreender melhor o percurso digital de quem chega ao mundo online mais tarde.
Como começou o seu interesse pela tecnologia e pela internet, e de que forma esse interesse evoluiu depois dos 65 anos?
A minha formação escolar sempre foi eletricidade e eletrónica. Após conclusão do 12º ano, ingressei numa empresa onde efetuava a manutenção e reparação de equipamentos audiovisuais. Esse interesse pela eletrónica levou-me a concorrer à EDP e integrei o departamento de comando e Controlo de Centrais e Subestações, onde tudo já era praticamente efetuado com novas tecnologias, sempre em constante evolução, durante os 36 anos que estive ao serviço de EDP/REN até atingir a idade da reforma.
O que o motivou a tornar-se formador de seniores em literacia digital?
Em 2014, casualmente, um amigo de longa data, que era formador na Universidade Sénior onde resido e porque iria ser sujeito a intervenção cirúrgica quando faltavam 2 meses para final do ano letivo da Universidade, solicitou-me que acabasse o ano por ele. Acabei por ficar como formador até à presente data.
Quais são os receios ou barreiras mais comuns que encontra nos participantes das suas formações?
A utilização de tecnologia. A maior parte dos formandos ouvia falar de computadores e smartphones, mas não tinham a menor ideia do potencial dos mesmos. O seu grande receio é que pudessem aceder aos seus dados pessoais ou contas bancárias.
Existe algum momento marcante em que tenha visto um sénior ganhar autonomia digital e mudar claramente a sua relação com a tecnologia?
Após os primeiros contatos com um computador é frequente os seniores procurarem aumentar o seu interesse pela tecnologia e pela forma como a usam. Procuram inclusive informação sobre programas que os netos utilizam e os seus efeitos e relevâncias, sempre na perspetiva de proteção geral.
Na sua experiência, que competências digitais são mais urgentes para quem tem mais de 65 anos?
Os primeiros contatos com as novas tecnologias e a Internet, são fundamentais. O interesse por novas formas digitais vai surgindo com naturalidade.
Como é que os seniores tipicamente lidam com a frustração inicial quando algo “não funciona”? Que estratégias utiliza para os ajudar a ultrapassar esse momento?
Normalmente se surgir uma “JANELA” diferente da que estão à espera, ficam inibidos de efetuar qualquer outra operação sem primeiro perguntarem ao formador o que devem fazer. Ao fim de algum tempo já começam a ter conhecimento dalguns anúncios que podem surgir.
“O simples facto de poderem ver e falar com a família a centenas de quilómetros traz aos seniores uma satisfação enorme.”
O que mais surpreende os seniores quando descobrem funcionalidades novas — por exemplo, videochamadas, grupos online, aplicações de saúde ou ferramentas de lazer?
Inicialmente é um mundo muito diferente daquele a que estavam habituados. O simples fato de agora poderem falar e visualizar o seu interlocutor que, muitas vezes, se encontra a centenas/milhares de quilómetros de distância trazem-lhes uma satisfação enorme.
De que forma a internet tem ajudado os seniores a manterem relações sociais e familiares mais ativas, superando limitações de distância ou mobilidade?
Como referido anteriormente, o simples fato de em qualquer momento poderem contatar os seus familiares com mais frequência e simultaneamente verem os seus rostos, ficam mais agradados e com mais vontade de repetir a experiência. Tenho alguns formandos que até já fazem vídeo chamadas para os familiares sem esperar que sejam eles a fazê-lo.
O que mudou, na sua opinião, na vida de um sénior que passa a usar a internet de forma regular?
Novos conhecimentos e vantagens. O conseguirem ter acesso a efetuar marcações de consultas médicas, notícias sem necessidade de comprar jornais ou revistas, o poderem utilizar o computador para consultar a meteorologia, acederem ao banco, segurança social e estimular o cérebro através de jogos de paciência é das grandes vantagens que todos eles referem.
“A adaptação ao mundo digital deve acontecer com naturalidade; cada descoberta aumenta a confiança e abre novas oportunidades.”
Quais são os erros mais frequentes que vê na utilização de smartphones e computadores por parte dos seniores — e como podem ser evitados?
Sempre o receio de estarem a expor a sua vida e poderem ser contatados para vendas online ou alterações de contratos, do gás, eletricidade e outros. O que aconselho é que nunca divulguem nada e respondam que não têm necessidade de qualquer alteração de contrato.
Que conselhos dá aos seniores para usarem a internet em segurança, especialmente em relação a burlas, mensagens suspeitas e proteção de dados pessoais?
Os meus formandos estão instruídos para que sempre que lhes solicitem informações de cariz pessoal através da internet ou pessoalmente, saberem que companhias de telefone, eletricidade, bancos, páginas de instituições oficiais ou que pareçam oficiais, não o fazem através da Internet.
Como vê o papel das redes sociais na vida das pessoas com mais de 65 anos? São mais uma oportunidade ou mais um risco?
Do ponto de vista de muitos deles são mais um risco! Daí os alertas que constantemente faço, embora reconheçam muitas vantagens com as redes sociais.
A formação digital para seniores deve ser diferente da formação para outros públicos? Como?
Com certeza! A adaptação às novas tecnologias é notoriamente mais fácil de se conseguir em idades mais baixas. As pessoas com mais de 65 anos não se adaptam tão facilmente porque nunca sentiram necessidade na formação digital.
Na sua opinião, que novos serviços ou ferramentas digitais poderão ter maior impacto na qualidade de vida dos seniores nos próximos anos?
Muitos dos formandos começam a colocar questões sobre a Inteligência Artificial. Seus benefícios e como a poderão utilizar, mas transmito sempre a ideia de que numa primeira fase deverão consolidar os primeiros passos nas ferramentas digitais mais acessíveis.
Para terminar: qual é a mensagem que gostaria de deixar aos associados da AREP que ainda se sentem ‘de fora’ do mundo digital?
Abram sempre o espírito a novas tecnologias, sem receio. A adaptação ao mundo atual deve acontecer duma forma natural, e esta rápida evolução também necessita da experiência de cada um, para constante desenvolvimento.

