Memórias de um “legado” dedicado à EDP

A história da minha família na EDP iniciou-se quando o meu pai integrou a Idouro, enquanto se erguia a Barragem de Picote. Foi ali que, com a minha mãe, construiu a nossa primeira casa. Ali viveram com os meus três irmãos mais velhos e onde nasceram mais duas irmãs — duas belas flores que desabrocharam naquele cenário lindo e agreste. Concluída Picote, seguiram para Bemposta, onde nasceu mais uma irmã e eu, precisamente no dia da inauguração. O país celebrava a luz e o futuro, e eu chegava ao mundo. Depois veio o Carrapatelo, onde nasceu a mana mais nova e onde guardo as primeiras memórias: as noites cálidas de verão, os vizinhos a conversarem e a aplaudir as nossas cantorias, numa espécie de festival da canção.

Começou ali o nosso amor pela música e as cantorias. Quando o Carrapatelo terminou, o meu pai decidiu mudar de rumo. Não quis mais a vida das barragens. Queria horizontes maiores para nós e levou-nos para Lisboa. Homem íntegro, era incapaz de trazer da Companhia uma caneta e levava sempre a vazia para trocar, como quem devolve à terra a semente que já cumpriu o seu papel.

Entrei na EDP com 17 anos, para um trabalho temporário em Setúbal, ainda com a inocência na alma. Assim começou a minha jornada: eu, a madrugar com o meu pai, para apanhar o carro do turno e a ver o sol nascer e a pôr-se sobre a ponte, como se cada dia fosse um filme dourado. O contrato prolongou-se, os estudos continuaram. Depois vieram outros contratos, até ser admitida… precisamente no mês em que o meu pai se reformou. Eu a começar, ele a concluir: um perfeito passar de testemunho.

Cresci na área dos Recursos Humanos, rodeada de chefes, colegas e colaboradores, incríveis, muitos dos quais se tornaram amigos para a vida. Nestes 40 anos de entrega, tentei ter em mim os traços dos meus pais: o carinho pelas pessoas e o compromisso do meu pai e a proatividade e a capacidade de criar valor da minha mãe.

Os meus 5 irmãos mais velhos trabalharam na EDP, desde muito jovens até se pré-reformarem. Também dois netos cá trabalharam. Um saiu para o mercado e a outra porque o programa de eficiência exigiu. Antes era inimaginável sair da empresa que nos deu origem, especialmente quando havia alguma situação vulnerável. Hoje o “em igualdade de mérito, entram os filhos dos trabalhadores” é difícil de implementar. O mundo mudou, a ética pede distanciamento. Mas nós, como tantas outras famílias numerosas da EDP, vivíamos a empresa como se fosse uma extensão da nossa casa, da nossa família. E foi esse espírito, essa teia de pertença e humanidade, que ajudou a construir a EDP de hoje.

Isabel Miguel

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