Fragmentos de uma caminhada

Uma das minhas paixões, para além da leitura e alguma escrita, é a caminhada. Caminho quilómetros e quilómetros. Só, acompanhada, de vez em quando pela Susana – minha filha.

E, sendo assim, não me aventuro sozinha a sair da minha zona de conforto. Às vezes, esqueço- -me e entro mais dentro de uma zona que não conheço. Recuo logo. Tenho muito medo dos cães e dos homens de bicicleta. Já nada me surpreende. Tenho visto de tudo. Sou confrontada, muitas vezes, com autênticas lições de vida.

Começando pela que tenho em casa, outra que vivi, de perto, na EDP. Mas, hoje, deparou-se-me uma situação que, para mim, era impensável. Num dos terrenos avistei um vulto que, no início, me pareceu um espantalho.

Fui-me aproximando e verifiquei que era um homem sentado num banco, com um boné na cabeça e, ao lado, uma enxada, um balde e uma bengala. Não resisti e, depois de o saudar, perguntei-lhe porque trabalhava tão desconfortavelmente. Respondeu-me que iria trabalhar enquanto a coluna dele o deixasse sentar, já que não tinha força nas pernas para trabalhar normalmente.

Uma filha vai levá-lo, arrasta-se com uma bengala até ao banco e dá início ao trabalho que programou para aquele dia. Era um homem ainda novo, cara bem marcada pelas agruras da vida. Mas afável, conversador, com vontade de partilhar o seu sofrimento, mas, também, a sua força e a sua coragem. Enterneceu-me. Fiquei sem palavras, porque o terreno que ele trabalha tem uma dimensão muito razoável e está dividido por leiras.

Tem de tudo, favas, cebolas, batatas, feijão-verde, ervilhas, alface, couves, nabos, uma panóplia de produtos para casa, não tendo que recorrer ao mercado para se abastecer. Sentado na sua solidão, prepara e semeia aquela terra com um carinho que, de certeza absoluta, não só a mim, mas surpreende todas as pessoas que ali passam.

Despedi-me e cheguei a casa mais rica, mais enternecida e com vontade de nunca desistir perante as adversidades que a vida me tem pregado.

É com este espírito que partilho parte dos meus tempos livres, colaborando na AREP, Área Social, numa tentativa de ajudar colegas sob o tema de “nós pelos outros”.

Branca Borges

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